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Entrevista 2026 | Design biofílico: como trazer a natureza para dentro de casa e transformar o bem-estar

Entrevista 2026 | Design biofílico: como trazer a natureza para dentro de casa e transformar o bem-estar



Designer Biofílica Telma de Gouveia e Arquiteto Paisagista Rui Salgado
03/06/2026, 17h09 - Publicado por: Linha da Praia


Num mundo cada vez mais urbano, em que aconteceu grande parte do tempo dentro de edifícios, a ligação com a natureza tornou-se mais distante do que nunca. Entre o trabalho, a vida doméstica e os ambientes digitais, muitos de nós vivem praticamente desligados de paisagens naturais, da luz natural, ou até do simples contato com materiais orgânicos.

É neste contexto que o design biofílico ganha cada vez mais relevância. Para compreender melhor esta abordagem, a Praia Magazine falou com a designer biofílica Telma de Gouveia e o arquiteto paisagista Rui Salgado sobre como trazer a natureza para dentro de casa e de que forma essa ligação pode influenciar o nosso bem-estar.

 

 

 

Mais do que uma tendência estética, o design biofílico surge como uma resposta a uma necessidade humana profunda. Segundo o especialista, trata-se de "transformar o conceito de biofilia no nosso dia-a-dia, através da ligação e inclusão de elementos da natureza nos espaços interiores" . Esta abordagem procura recriar, dentro do ambiente construído, uma sensação de contato com o mundo natural, criando espaços que não são apenas visualmente atraentes, mas também emocionais e biologicamente benéficos. 

A própria ideia de biofilia ajuda a explicar este conceito. Segundo a designer biofílica Telma de Gouveia, o termo refere-se à ligação inata que os seres humanos têm com a natureza, uma relação que acompanha a evolução da nossa espécie e que continua a influenciar a forma como nos sentimos em determinados ambientes. "O significado de biofilia pode ser compreendido através da conexão entre o ser humano e a natureza, impulsionando, em última análise, o conceito de design biofílico" , explicam. 

No contexto do design de interiores, esta filosofia se traduz na criação de espaços que combinam estética, funcionalidade e bem-estar, através da integração de elementos naturais e de experiências sensoriais que evocam o ambiente natural. Segundo os profissionais, a arte biofílica funciona precisamente como uma ponte entre a vida urbana moderna e a natureza, permitindo que essa ligação continue a existir mesmo dentro de casa.


Muito mais do que decorar com plantas


Apesar de muitas vezes ser associado à presença de plantas, o design biofílico vai muito além de uma simples decoração verde. Segundo a designer Telma de Gouveia, existe uma diferença fundamental entre colocar plantas num espaço e aplicar verdadeiramente os princípios da biofilia.

"Enquanto a decoração com plantas foca no visual, o design biofílico foca na experiência do utilizador e na biologia", explica a designer biofílica Telma de Gouveia. Ou seja, não se trata apenas de introduzir um elemento natural por motivos estéticos, mas de criar um ambiente que estimule os sentidos e que contribua para o equilíbrio físico e emocional das pessoas.

Essa diferença é essencial porque a biofilia não é apenas uma preferência cultural ou uma tendência recente. Como sublinham os especialistas, "biofilia não é apenas gostar de plantas, uma moda estética ou uma escolha cultural recente". Pelo contrário, o design biofílico baseia-se na nossa necessidade biológica de contacto com a natureza, procurando recriar esse vínculo através de diferentes estímulos, como luz natural, ventilação, materiais orgânicos, texturas naturais e presença de vegetação.


Os elementos que recriam a sensação de natureza


Ao contrário do que se poderia pensar, o design biofílico não depende apenas de organismos vivos. Segundo os profissionais Telma de Gouveia e Rui Salgado, muitos dos elementos mais importantes são aqueles que evocam a natureza de forma indireta, despertando no nosso cérebro associações com paisagens naturais.

Materiais como madeira, pedra, bambu, barro ou cortiça são particularmente relevantes porque "envelhecem de forma natural e possuem texturas orgânicas", ajudando a criar uma sensação de autenticidade. Da mesma forma, a luz natural desempenha um papel essencial, sobretudo quando permite acompanhar as variações de luz e sombra ao longo do dia, algo que contribui para regular o ritmo circadiano, o nosso relógio biológico. 

A presença de água, seja através de fontes ou aquários, também pode ajudar a reduzir o stress, enquanto aromas naturais e sons inspirados na natureza reforçam a experiência sensorial. Segundo os especialistas, esta abordagem é essencial porque "a biofilia é multissensorial", envolvendo não apenas aquilo que vemos, mas também aquilo que ouvimos, tocamos e até cheiramos.

As cores e as formas também fazem parte desta linguagem natural. Tons de terra, verdes e azuis, inspirados em paisagens naturais, ajudam a criar ambientes mais equilibrados, enquanto linhas orgânicas e curvas, que lembram folhas, paisagens ou o próprio corpo humano, tendem a ser mais confortáveis para a perceção humana do que linhas rígidas e geométricas. 

Como aplicar o design biofílico em casa


Trazer a biofilia para dentro de casa não exige necessariamente grandes obras ou transformações radicais. Segundo o arquiteto paisagista Rui Salgado, a chave está em pensar cada divisão de forma estratégica, trabalhando três pilares fundamentais: a presença direta de natureza, os materiais que evocam o ambiente natural e as sensações espaciais que lembram paisagens naturais.

Na sala, por exemplo, a luz natural deve ser valorizada sempre que possível. Cortinas leves de linho que permitam a entrada de luz filtrada e a circulação do ar podem fazer uma grande diferença na atmosfera do espaço. Além disso, agrupar plantas com diferentes alturas e volumes ajuda a criar um efeito visual semelhante a uma pequena paisagem natural.
Segundo os especialistas, "criar um agrupamento de plantas com alturas diferentes, em vez de vasos isolados, ajuda a mimetizar uma paisagem natural"

O quarto, por sua vez, deve funcionar como um verdadeiro refúgio de recuperação. Aqui, o foco está no conforto sensorial e no ritmo circadiano, sendo aconselhável utilizar tecidos naturais como algodão, lã ou linho, bem como uma paleta cromática inspirada na natureza, com verdes suaves, tons terra ou beges. Plantas suspensas, como kokedamas, podem contribuir para reforçar essa atmosfera tranquila, enquanto painéis de musgo preservado, segundo a designer Telma de Gouveia, ajudam inclusive "a baixar a frequência cardíaca". 

Na cozinha, a biofilia pode assumir uma vertente mais prática. Criar uma pequena horta urbana com ervas aromáticas, como manjericão, alecrim ou hortelã, permite estabelecer uma ligação sensorial direta com a natureza, sobretudo através do olfato. "O aroma é um estímulo sensorial potente", explicam os especialistas, acrescentado que elementos simples como tábuas de madeira ou bancadas de pedra natural também ajudam a trazer texturas naturais para o quotidiano.

Já na casa de banho, a humidade pode transformar-se numa vantagem. Espécies como fetos, epipremnum ou philodendron adaptam-se bem a este ambiente e ajudam a criar uma atmosfera quase tropical. Pequenos detalhes sensoriais também podem reforçar essa experiência, como a utilização de seixos no chão do duche para estimular o tato ou óleos essenciais de eucalipto que evocam a sensação de um banho na floresta.


Biofilia também funciona em casa pequenas


Mesmo em apartamentos com pouco espaço, é possível aplicar os princípios do design biofílico de forma eficaz. Segundo o arquiteto Rui Salgado, uma das estratégias mais inteligentes passa por aproveitar o espaço vertical.

"Em apartamentos pequenos, encher o chão com vasos rouba espaço de circulação", explica. Como alternativa, plantas suspensas, kokedamas ou suportes de macramê podem transformar paredes e tetos em verdadeiros jardins suspensos. 

Outra estratégia consiste em agrupar diferentes espécies de plantas em vez de espalhá-las pela casa. Segundo os especialistas, essa solução cria um pequeno "mini ecossistema", que produz um impacto visual muito mais forte e facilita também a manutenção das plantas.

Os erros mais comuns


Apesar da popularidade crescente da biofilia, existem alguns erros comuns na tentativa de aplicar este conceito. Um dos mais comuns é tratar plantas como simples objetivos decorativos, colocando-as em locais onde não tenham condições adequadas de luz ou ventilação.

Segundo os profissionais, isso pode levar rapidamente à morte das plantas e até gerar frustração para quem tenta cuidar delas. Nestes casos, elementos preservados, como cogumelos estabilizados ou plantas preservadas, podem ser uma alternativa interessante.


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